A terra está órfã de mãos. A média de idade dos agricultores portugueses é de 65 anos e cada vez temos menos pessoas interessadas em fazer da agricultura e produção de alimentos o seu modo de vida.
A falta de mão de obra no campo não é apenas um desafio, é também um convite à inovação e à valorização de quem faz a agricultura acontecer.
Dados da DGES publicados há um mês mostram a falta de candidatos aos cursos ligados às ciências agrícolas. A tabela abaixo elaborada pela Cientista Agrícola compila os dados que ilustram esta realidade.
A ausência de candidatos não mostra que a agricultura deixou de ser essencial, apenas revela que continua a ser desvalorizada e invisível. Assistimos a uma grande desconexão com quem coloca a mão na terra e produz alimentos.
Hoje, a população é cada vez mais urbana e perdeu-se a ligação ao campo e ao mundo rural. Muito do conhecimento sobre a produção de alimentos, é na verdade, verdadeiro desconhecimento porque as opiniões são formadas com informação que consta na internet, descontextualizada, muitas vezes manipulada e desfasada da realidade.
É preciso ir ao encontro dos alunos e dar a conhecer a oferta formativa das diferentes universidades e institutos ligados ao sector. É frequente ouvir relatos de estudantes do ensino secundário acerca da ausência das universidades e institutos ligados às ciências agrícolas nas palestras e fóruns informativos sobre as diferentes ofertas formativas disponíveis.
As próprias escolas ignoram a divulgação destes cursos porque a agricultura muitas vezes é vista como uma profissão “pouco atrativa”, associada a trabalho duro e poucos rendimentos, o que leva a um certo desinteresse por parte de alunos e famílias. Este desinteresse acentua-se durante o percurso escolar. Os próprios manuais escolares passam a imagem do agricultor que trabalha com um arado e enxada quando na verdade usamos drones, tratores e equipamentos altamente tecnológicos para executar várias tarefas, aumentando assim a eficiência e promovendo a sustentabilidade.
Existe a ideia de que os alimentos são um bem adquirido e que nunca irão faltar. O contexto geopolítico mundial, a guerra da Ucrânia, as exigências ambientais europeias, as políticas com as taxas alfandegárias, a possibilidade de um conflito prolongado no Médio Oriente ou no Mar Negro remetem-nos para um cenário que se pode agravar a qualquer momento e ter impactos mundiais.
Precisamos de garantir a soberania alimentar portuguesa e isso faz-se com POLÍTICAS e PESSOAS. É preciso criar proximidade, dar a conhecer o mundo rural, o modo de produção, o progresso e mostrar que queremos e podemos transformar a terra em oportunidades.
Hoje semeamos o amanhã.
Opinião de Marisa Costa para o portal Sapo
